Doença inflamatória intestinal
Imunossupressores: orientações importantes para quem tem DII
O que saber antes de começar a usar imunossupressores, como acompanhar o tratamento com segurança e quais sinais pedem atendimento rápido.
“Como cirurgião, recebo muitas pessoas com Crohn ou retocolite que usam esses remédios há anos. As dúvidas se repetem: posso tomar vacina, posso parar antes de operar, essa febre é preocupante? Este guia responde a essas perguntas.”Dr. Rodrigo Barbosa
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O que são imunossupressores e por que entram no tratamento da DII?
Na doença inflamatória intestinal (DII), o sistema imune reage de forma exagerada contra a parede do intestino. O resultado são feridas, diarreia, sangue nas fezes e dor. Os imunossupressores reduzem essa reação e permitem que a mucosa (revestimento interno do intestino) cicatrize.
Como agem no intestino
Cada classe atua num ponto diferente da resposta inflamatória. Alguns remédios diminuem a produção de células de defesa. Outros bloqueiam moléculas específicas que alimentam a inflamação. O objetivo é controlar crises e evitar recaídas, reduzindo a chance de complicações como estreitamentos e fístulas (canais anormais entre órgãos ou até a pele).
Quem decide e acompanha
A indicação parte do gastroenterologista, que conhece o histórico completo da doença. Coloproctologista, infectologista, dermatologista e nutricionista entram conforme a necessidade. Para entender o tratamento como um todo, vale ler sobre o tratamento da doença de Crohn e sobre as opções do tratamento da retocolite ulcerativa.

Quais remédios fazem parte desse grupo?
Imunomoduladores clássicos
Azatioprina e 6-mercaptopurina são comprimidos usados principalmente para manter a doença controlada depois da crise, na doença de Crohn e na retocolite. Esses remédios demoram semanas para agir, por isso não servem para apagar uma crise aguda. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Crohn, do Ministério da Saúde, descreve como devem ser usados e monitorados.
O metotrexato tem papel diferente conforme a doença. Na doença de Crohn, geralmente em injeção sob a pele, é uma opção para manter a remissão, sobretudo em quem depende de corticoide, segundo as diretrizes da ECCO para a doença de Crohn (2024). Na retocolite, ele não tem o mesmo respaldo e não é tratado como opção equivalente.
Biológicos e pequenas moléculas
Biológicos são remédios produzidos a partir de células vivas, aplicados na veia ou sob a pele. Infliximabe e adalimumabe bloqueiam uma molécula inflamatória chamada TNF. As pequenas moléculas são comprimidos que interrompem sinais da inflamação dentro das células. A diretriz da AGA sobre retocolite moderada a grave (2024) avalia essas opções e também a combinação de anti-TNF com imunomodulador.
Corticoides e ciclosporina
Corticoides, como a prednisona, controlam crises rapidamente, mas não são indicados para uso prolongado por causa dos efeitos colaterais. A ciclosporina fica reservada a situações específicas de retocolite grave, em ambiente hospitalar. Na rede pública, os critérios de cada remédio seguem os protocolos clínicos do Ministério da Saúde para doença de Crohn e para retocolite ulcerativa.
Que exames são feitos antes de começar?
Algumas infecções ficam quietas no corpo por anos e só aparecem quando a defesa cai. Por isso, o rastreamento acontece antes de iniciar, e não depois do primeiro problema. O protocolo do Ministério da Saúde para a doença de Crohn lista os exames exigidos para cada remédio.
Pesquisa de infecções
A tuberculose latente (infecção pela bactéria da tuberculose sem doença ativa, que não causa sintomas nem é transmitida) e as hepatites B e C estão entre as investigações habituais, sobretudo antes de biológicos. Conforme o caso, o médico também pede sorologias para outros vírus.
Cada resultado leva a uma conduta diferente. Na tuberculose latente, um tratamento preventivo reduz a chance de reativação, e o imunossupressor costuma começar depois, no momento definido pelo médico. Na hepatite B, alguns pacientes recebem antiviral para evitar que o vírus volte a se multiplicar. Já uma infecção ativa é tratada antes, e o início do imunossupressor fica adiado.
Exames de sangue de base
Hemograma completo e função do fígado e dos rins servem de comparação para os controles futuros. Para azatioprina, alguns médicos pedem ainda um teste que estima como o corpo processa o remédio. Leve todos os resultados antigos à consulta.
Carteira de vacinação
Algumas vacinas precisam ser aplicadas antes da imunossupressão. O guia sobre vacinas na doença inflamatória intestinal detalha quais costumam ser recomendadas.
Como é o acompanhamento durante o uso?
Exames de segurança
Azatioprina e 6-mercaptopurina podem baixar os glóbulos brancos e alterar o fígado. O metotrexato também exige controle hepático. Por isso, hemograma e enzimas do fígado são repetidos com frequência no começo e depois em intervalos maiores. Um resultado alterado não significa necessariamente suspender; às vezes basta ajustar a dose.
Calprotectina e PCR
Sentir-se bem nem sempre quer dizer intestino cicatrizado. A calprotectina fecal (proteína medida nas fezes) e a PCR (proteína C reativa, exame de sangue) ajudam a estimar a atividade inflamatória. Os dois têm limites: podem subir por infecção ou outros problemas e, às vezes, ficam normais com a doença ativa.
Por isso, o médico lê esses resultados junto com os sintomas e, quando preciso, com colonoscopia ou exames de imagem. A diretriz da AGA sobre biomarcadores na retocolite (2023) orienta como usar esses marcadores no acompanhamento e em que situações eles não bastam.
Com quem fazer o seguimento
O ideal é manter um especialista que conheça sua história e veja os exames em sequência. Um gastroenterologista especializado em Crohn interpreta pequenas variações que passariam despercebidas numa consulta isolada.
Quais infecções preocupam e quais sinais pedem atendimento?
O risco vem tanto da própria doença, com inflamação ativa e desnutrição, quanto do tratamento. Ele depende do remédio e da dose e costuma ser maior com corticoide em dose alta e com a combinação de remédios.
Sinais que pedem atendimento de emergência
- Falta de ar importante.
- Confusão mental ou desmaio.
- Desidratação grave, com boca muito seca, pouca urina ou tontura ao levantar.
Sinais que pedem contato no mesmo dia
- Febre ou calafrios, mesmo que tenham começado há pouco.
- Tosse que não melhora ou falta de ar leve.
- Diarreia muito intensa.
- Pele ou olhos amarelados (icterícia).
- Sangramentos fora do habitual ou manchas roxas sem motivo.
- Bolhas dolorosas na pele, que podem indicar herpes-zóster.
Durante a imunossupressão, não espere a febre durar dias para avisar a equipe.
Infecção ou crise da doença?
Diarreia com febre pode ser crise da DII ou infecção intestinal, e a conduta muda bastante. Se a causa for infecção, intensificar o imunossupressor pode dificultar o controle dela. O peso desse risco depende do tipo de infecção, da gravidade do quadro e da atividade da DII.
Por isso, o médico costuma pedir exames de fezes antes de decidir. Avise sempre que usa imunossupressor, inclusive no pronto-socorro.
E o risco de câncer?
O risco varia conforme a classe de remédio. Azatioprina e 6-mercaptopurina se associam a mais casos de câncer de pele não melanoma e, mais raramente, de linfoma. Com os anti-TNF, as diretrizes da ECCO sobre DII e câncer (2023) apontam um pequeno aumento do risco de melanoma.
Esse risco precisa ser pesado contra o benefício do tratamento. A inflamação sem controle aumenta a chance de câncer colorretal, e manter a doença controlada faz parte da prevenção. No dia a dia, isso significa protetor solar, exame periódico da pele com dermatologista e colonoscopia de vigilância no intervalo que o médico definir.
O guia sobre doença inflamatória intestinal e câncer aprofunda essa relação.
Vacinas e alimentação: o que ajuda no dia a dia?
Vacinas vivas e inativadas
Vacinas inativadas, como a da gripe injetável, costumam ser recomendadas para quem usa imunossupressor. Vacinas de vírus vivo atenuado, como febre amarela e algumas formulações contra herpes-zóster, podem ser contraindicadas durante imunossupressão importante. Antes de qualquer vacina, inclusive em campanha, mostre a lista de remédios ao profissional de saúde.
Estado nutricional
Desnutrição e inflamação ativa somam risco de infecção e de complicações. A diretriz da ESPEN sobre nutrição clínica na DII (2023) recomenda avaliar o estado nutricional e corrigir deficiências. Ferro baixo é frequente, como mostra o texto sobre anemia na doença inflamatória intestinal.
Não existe alimento que "fortaleça" a imunidade a ponto de compensar o remédio. O que funciona é comer o suficiente, sem cortes radicais. Um nutricionista especialista em DII monta um plano que respeita as fases da doença.
Hábitos simples
Lavar as mãos com frequência e evitar contato próximo com pessoas gripadas ajuda. Cuidado com alimentos crus de procedência duvidosa, como carne malpassada e leite não pasteurizado. Sono regular também conta.
Posso parar, pular dose ou trocar o remédio?
Quando os sintomas somem, é comum pensar que o remédio já cumpriu o papel. Na DII, porém, o controle costuma depender justamente do uso contínuo. A suspensão sem planejamento pode trazer uma crise mais difícil de controlar.
Quando a troca é avaliada
O médico pode mudar o tratamento se a resposta for insuficiente, se surgirem efeitos colaterais ou se as infecções se repetirem. As recomendações da ECCO para Crohn (2024) e a diretriz da AGA para retocolite organizam esse raciocínio de escalonamento e ajuste.
Gravidez e planos de família
O metotrexato é contraindicado na gestação e exige método contraceptivo eficaz; a suspensão antes de engravidar é planejada com o médico. Azatioprina, 6-mercaptopurina e anti-TNF costumam ser mantidos com acompanhamento, porque a doença ativa também traz risco à gravidez. As diretrizes da ECCO sobre gravidez na DII (2023) detalham cada caso. Converse com o médico antes de engravidar, e não depois.
Rede pública e documentos
No SUS, a dispensação segue os critérios do protocolo vigente, com laudos e exames periódicos. A carteirinha de identificação da DII ajuda a informar seu diagnóstico em atendimentos fora da rotina.
E se eu precisar de cirurgia usando imunossupressores?
Essa é a parte que acompanho de perto como cirurgião. Corticoides em dose alta, desnutrição e inflamação ativa pesam na cicatrização. A diretriz da ESPEN para nutrição na DII (2023) recomenda corrigir a desnutrição antes de cirurgias programadas, quando possível.
Já a decisão de pausar um biológico ou imunomodulador antes da operação é individual. Por isso, prefiro planejar junto com o gastroenterologista, olhando exames recentes e o estado nutricional.
O que levar à consulta cirúrgica
Leve a lista completa de remédios, com dose e data da última aplicação do biológico. Traga também os exames de sangue e de imagem mais recentes. Nunca suspenda o corticoide de forma brusca: o corpo pode precisar de redução gradual.
Depois da retirada do intestino grosso
Na retocolite, algumas pessoas fazem uma bolsa com o final do intestino delgado ligada ao ânus. Essa bolsa pode inflamar, quadro chamado pouchite. A diretriz da AGA sobre pouchite e doenças inflamatórias da bolsa (2024) discute antibióticos, corticoides e biológicos nesse cenário. Para entender quando a operação é indicada na DII, veja o guia de cirurgia para doença de Crohn.
Passo a passo
- 1Avaliação da doença
O especialista confirma a extensão e a atividade da DII com exames de imagem, colonoscopia e marcadores de inflamação.
- 2Escolha do remédio
A decisão considera gravidade, tratamentos anteriores, outras doenças, planos de gravidez e os critérios dos protocolos.
- 3Rastreamento antes de iniciar
Exames de sangue, pesquisa de infecções como tuberculose e hepatites e revisão da carteira de vacinação.
- 4Início com orientação
Você recebe a dose, a forma de uso e a lista de sinais de alerta que pedem contato com a equipe.
- 5Exames de controle
Hemograma, função do fígado e marcadores como calprotectina fecal e PCR são repetidos em intervalos definidos pelo médico.
- 6Reavaliação periódica
O médico confere resposta e efeitos colaterais e decide se mantém, ajusta ou troca o tratamento.
“Quando alguém que usa imunossupressor precisa de cirurgia, não decido sozinho a data da última dose. Combino com o gastroenterologista, olhando exames recentes e o estado nutricional, antes de marcar a operação.”
Dr. Rodrigo Barbosa, Cirurgião do Aparelho Digestivo
Perguntas frequentes
O que são imunossupressores na doença inflamatória intestinal?
São remédios que reduzem a resposta do sistema imune, que na doença de Crohn e na retocolite ataca o próprio intestino. Com a defesa menos agressiva, a inflamação diminui e a mucosa tem chance de cicatrizar. Azatioprina, metotrexato, biológicos e corticoides fazem parte desse grupo.
Quais são os imunossupressores mais usados na DII?
Azatioprina e 6-mercaptopurina são imunomoduladores usados para manter o controle na doença de Crohn e na retocolite. O metotrexato tem papel principal na doença de Crohn, geralmente em injeção. Biológicos como infliximabe e adalimumabe e as pequenas moléculas entram em casos moderados a graves. Corticoides tratam crises por períodos curtos, e a ciclosporina fica para situações específicas de retocolite grave.
Quem usa imunossupressor pega mais infecção?
O risco de infecções por bactérias, vírus e fungos aumenta, e ele depende do remédio, da dose e da combinação usada. A própria inflamação e a desnutrição também pesam. Rastreamento antes de iniciar, vacinas em dia e atenção aos sinais de alerta reduzem esse risco.
Quais sinais exigem procurar o médico rapidamente?
Falta de ar importante, confusão mental, desmaio ou desidratação grave pedem atendimento de emergência imediato. Febre ou calafrios, mesmo recentes, tosse que não melhora, diarreia intensa, pele amarelada, sangramentos sem motivo e bolhas dolorosas na pele pedem contato com a equipe no mesmo dia. Em qualquer atendimento, informe que usa imunossupressor e leve a lista de remédios.
Posso tomar vacina usando imunossupressor?
Vacinas inativadas, como a da gripe injetável, costumam ser recomendadas. Vacinas de vírus vivo atenuado, como a da febre amarela, podem ser contraindicadas durante imunossupressão importante. O ideal é atualizar a carteira antes de começar o tratamento e sempre consultar o médico antes de cada dose.
Que exames preciso fazer durante o tratamento?
Hemograma e enzimas do fígado controlam a segurança, principalmente com azatioprina e metotrexato. A calprotectina fecal e a PCR ajudam a estimar a atividade inflamatória, mas podem se alterar por outras causas e são lidas junto com os sintomas e, às vezes, a colonoscopia. A frequência de cada exame varia conforme o remédio e a fase do tratamento.
Posso parar o imunossupressor quando me sentir bem?
Não sem orientação. Na DII, o controle costuma depender do uso contínuo, e a suspensão por conta própria pode trazer uma crise mais difícil de controlar. Qualquer redução ou troca é decidida em consulta, com exames recentes e avaliação da atividade da doença.
Posso engravidar usando imunossupressor?
Depende do remédio. O metotrexato é contraindicado na gestação e exige contracepção eficaz durante o uso. Outros medicamentos costumam ser mantidos com acompanhamento, porque a doença ativa também traz risco à gravidez. O planejamento deve ser conversado com o gastroenterologista antes de engravidar.
Preciso parar o remédio antes de uma cirurgia?
Nem sempre. A decisão é individual e combinada entre cirurgião e gastroenterologista, considerando o remédio, a data da última aplicação e o estado nutricional. O corticoide nunca deve ser interrompido de forma brusca. Leve à consulta cirúrgica a lista completa de medicamentos e exames recentes.
A alimentação fortalece a imunidade de quem usa imunossupressor?
Nenhum alimento compensa o efeito do remédio sobre a defesa. O que ajuda é comer o suficiente, corrigir deficiências como ferro e vitaminas e evitar alimentos crus de procedência duvidosa. A avaliação nutricional com profissional especializado em DII faz parte do acompanhamento recomendado pelas diretrizes.
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Acompanhamento de doença de Crohn e retocolite com gastroenterologia, coloproctologia e equipe multidisciplinar, no Instituto Medicina em Foco, em São Paulo. Conteúdo revisado por Dr. Rodrigo Barbosa.
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