Reumato para sacroileíte em pacientes com DII
Quando a dor na base da coluna de quem tem doença inflamatória intestinal (DII), como Crohn ou retocolite, pede avaliação reumatológica, e o que muda no tratamento.
Dr. Erivelton Lopes · Reumatologista · CRM 166408 · RQE 89517
“Muitos pacientes com doença inflamatória intestinal passam anos tratando uma dor lombar como se fosse problema de postura. Quando a dor acorda a pessoa de madrugada e alivia ao se mexer, eu investigo a articulação sacroilíaca.”— Dr. Erivelton Lopes
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- CRM 166408 · RQE 89517
- Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
- Clínica Médica pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
- Reumatologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP)
- Princípios de Pesquisa Clínica pela Universidade de Harvard
- Associado do Colégio Americano de Reumatologia (ACR)
- Teleconsultor em Reumatologia do Hospital Israelita Albert Einstein pelo PROADI
- Coordenador da Comissão de Mídias da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR)
- Instituto Medicina em Foco, Rua Frei Caneca, 1380, Consolação, São Paulo

O que é sacroileíte e por que ela aparece em quem tem DII?
A articulação sacroilíaca liga o sacro (osso triangular no fim da coluna) aos ossos da bacia, um de cada lado. Ela se mexe pouco, mas sustenta o peso do tronco. Quando inflama, a dor aparece na parte baixa das costas e nas nádegas.
A ligação entre intestino e articulação
A doença de Crohn e a retocolite ulcerativa são doenças do sistema imune. A inflamação que nasce no intestino pode alcançar outros órgãos, entre eles olhos, pele e articulações. Um estudo interdisciplinar sobre manifestações reumáticas na DII (2025) descreveu o comprometimento da coluna entre essas queixas.
Sacroileíte isolada ou espondiloartrite axial
Em parte das pessoas, a inflamação fica restrita às sacroilíacas. A espondiloartrite axial (doença inflamatória crônica do esqueleto central do corpo) pode envolver as sacroilíacas, com ou sem acometimento da coluna. A diretriz europeia sobre manifestações extraintestinais da DII (2024) reúne essas apresentações no mesmo grupo.
Explico esse quadro mais amplo no guia sobre espondiloartrite axial em quem tem DII. Para quem ainda está entendendo o próprio diagnóstico intestinal, vale ler o que é a doença de Crohn.

Como reconhecer a dor inflamatória da sacroileíte?
A queixa clássica é dor na região lombar baixa ou nas nádegas, às vezes alternando de lado. Ela costuma começar em adultos jovens e se arrastar por meses. Pela manhã, vem acompanhada de rigidez que demora a passar, e o banho quente e a caminhada aliviam.
Dor inflamatória e dor mecânica
A dor mecânica, de sobrecarga ou hérnia de disco, costuma piorar com esforço e ceder com repouso. A inflamatória tende ao caminho inverso: incomoda deitado e diminui quando a pessoa se movimenta. Acordar na segunda metade da noite por causa da dor é um sinal que eu valorizo bastante.
Esses padrões sugerem a origem da dor, mas se sobrepõem. Há quem tenha os dois tipos ao mesmo tempo, e nenhum deles confirma ou exclui a sacroileíte sozinho.
Quando a inflamação não dá sinal
Algumas pessoas têm sacroileíte com pouca ou nenhuma dor, e a alteração aparece numa ressonância feita para avaliar o intestino. Outro ponto confunde: a inflamação da coluna pode seguir ativa com o intestino calmo. Por isso, intestino controlado não descarta a causa articular.
Quando procurar o reumatologista?
O gastroenterologista costuma ser o primeiro a ouvir a queixa. Quando a dor nas costas tem cara de inflamação, o encaminhamento ao reumato para sacroileíte encurta o caminho até o diagnóstico.
Sinais que justificam a consulta
- Dor lombar ou nas nádegas que se arrasta por semanas; três meses é o marco clássico das diretrizes, e não um prazo de espera.
- Rigidez ao acordar que leva bastante tempo para soltar.
- Dor que acorda de madrugada e alivia ao levantar.
- Alívio com exercício e piora com repouso prolongado.
Se esses sinais aparecem juntos, a consulta pode ser marcada antes dos três meses. Dor nas costas com febre, fraqueza progressiva nas pernas ou alteração no controle da urina pede atendimento de urgência no mesmo dia.
Outras queixas que costumam andar juntas
Joelhos ou tornozelos inchados podem sugerir artrite periférica, tema do guia sobre artrite em pacientes com DII. Dor no calcanhar pode ser entesite (inflamação onde o tendão se prende ao osso).
Manchas descamativas na pele podem sugerir psoríase. Nesse caso, as articulações precisam de exame próprio para investigar a artrite psoriásica associada à DII. Olho vermelho, dolorido e sensível à luz pode ser uveíte (inflamação na parte interna do olho) e pede atendimento oftalmológico no mesmo dia.
Como o reumatologista confirma o diagnóstico?
Começo pela conversa: quando a dor surgiu, em que horário pesa, o que alivia e como está a DII. Pergunto sobre uso de corticoide, cirurgias intestinais e histórico familiar de doenças da coluna. Essas respostas orientam o resto da investigação.
O exame físico
Examino a mobilidade da coluna lombar e do pescoço, a expansão do tórax e algumas manobras que comprimem as sacroilíacas. Também procuro articulações inchadas, tendões doloridos e lesões de pele.
Exames de sangue
A proteína C reativa e a velocidade de hemossedimentação (exames que medem inflamação no sangue) ajudam, mas sobem também com a atividade do intestino. O HLA-B27 é um gene ligado às espondiloartrites. Resultado negativo não descarta sacroileíte em quem tem DII.
O que precisa ser diferenciado
Lombalgia de sobrecarga, hérnia de disco e alterações da bacia após gestação entram na lista. A fibromialgia (dor difusa sem inflamação na articulação) também confunde, e o guia sobre reumatologista para fibromialgia mostra as diferenças. Quem usou corticoide por longos períodos pode ter fraturas por fragilidade óssea, avaliadas pelo reumatologista especialista em osteoporose.
Que exames de imagem mostram a sacroileíte?
A radiografia da bacia é barata e acessível, mas só enxerga dano que levou tempo para se formar. Na fase inicial, ela pode vir normal mesmo com a articulação inflamada. Por isso a ressonância magnética das sacroilíacas costuma ser o exame de escolha.
O que a ressonância procura
Segundo o artigo da Radiologia Brasileira sobre critérios de imagem para detectar sacroileíte, os achados se dividem em dois grupos. O edema da medula óssea (inchaço do osso ao lado da articulação) indica inflamação ativa. Erosões, esclerose (osso mais denso), depósito de gordura e fusão da articulação apontam lesão crônica.
Por que a imagem sozinha não decide
Pequenas áreas de edema podem surgir por sobrecarga mecânica, sem doença inflamatória. Eu sempre leio o laudo ao lado da história e do exame físico. A tomografia entra quando é preciso detalhar o osso ou quando a ressonância não pode ser feita.
Por que anti-inflamatório por conta própria é arriscado?
Na espondiloartrite sem doença intestinal, os anti-inflamatórios não esteroides (como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno) são o primeiro passo. Em quem tem Crohn ou retocolite, esses remédios podem reativar a inflamação do intestino. O documento de especialistas sobre perfis clínicos na espondiloartrite axial (2023) trata a DII como um perfil que exige ajuste dessa conduta.
Do que depende o risco
O risco parece maior com o intestino em atividade, com doses altas e com uso prolongado, e muda conforme o remédio. A diretriz da ECCO para manifestações extraintestinais (2024) admite ciclos curtos em quem está em remissão, de preferência com inibidores seletivos da COX-2.
A evidência vem de estudos pequenos, com resultados que nem sempre se repetem entre Crohn e retocolite. Por isso a decisão leva em conta a fase da DII, o histórico de crises e outros riscos, como rim e estômago. Essa conversa acontece entre reumatologia e gastroenterologia, nunca no balcão da farmácia.
Corticoide e remédios convencionais
As diretrizes desaconselham corticoide prolongado para a doença da coluna. A sulfasalazina tem evidência na artrite periférica e já é usada no tratamento intestinal de parte dos pacientes. O metotrexato tem dados mais limitados nessa situação. Segundo a mesma diretriz da ECCO, nenhum dos dois controla a inflamação axial.
Quais tratamentos cuidam do intestino e da coluna ao mesmo tempo?
Os biológicos (remédios que bloqueiam uma molécula específica da inflamação) mudaram o cuidado da sacroileíte associada à DII. Com doença intestinal, costumam ser a primeira escolha os anti-TNF (remédios que bloqueiam o fator de necrose tumoral, uma substância da inflamação). Entre eles, valem os do tipo anticorpo monoclonal (proteína feita para se ligar a um único alvo), como infliximabe e adalimumabe. O etanercepte age na coluna, mas não trata o intestino.
Biológicos que pedem cautela
Os inibidores de interleucina 17 (secuquinumabe, ixequizumabe) funcionam na espondiloartrite, porém podem desencadear ou agravar a DII. Já os inibidores de interleucina 23 tratam o intestino e a psoríase, mas não mostraram benefício na inflamação da coluna. A recomendação EULAR para artrite psoriásica (2024) também pede atenção à DII na escolha do remédio.
Comprimidos e preparo para o biológico
Os inibidores de JAK (comprimidos que bloqueiam sinais da inflamação dentro da célula) não formam um grupo uniforme. Cada molécula tem aprovação própria para a coluna, para a retocolite e para Crohn. O risco de trombose e de eventos cardiovasculares pesa na escolha, como discute a diretriz da ECCO sobre manifestações extraintestinais.
Antes de qualquer imunossupressor, pesquiso tuberculose e hepatites e reviso o cartão de vacinas, conforme o guia de vacinas para quem tem DII. O plano conversa com o tratamento da doença de Crohn ou com o tratamento da retocolite ulcerativa já em curso.
Como funciona o acompanhamento entre reumato e gastro?
A troca de remédio por causa da coluna mexe no intestino, e o contrário também acontece. Por isso, no NuDii, discuto os casos com o gastroenterologista antes de mudar a terapia, como o gastroenterologista especialista em Crohn. Minha formação está na página do Dr. Erivelton Lopes, e a equipe completa aparece na página do núcleo de doenças inflamatórias intestinais.
Exercício e hábitos que fazem diferença
As diretrizes de espondiloartrite colocam exercício regular e fisioterapia ao lado dos remédios. Alongamento, fortalecimento e atividades como natação ajudam a manter a coluna móvel. Parar de fumar beneficia a coluna e, na doença de Crohn, também o intestino.
O que acontece nos retornos
Em cada consulta, reavalio dor, rigidez, mobilidade e exames de inflamação. A ressonância é repetida quando o resultado pode mudar a conduta. A diretriz da ECCO para manifestações extraintestinais defende esse cuidado compartilhado entre as especialidades.
A carteirinha para Crohn e retocolite serve para informar o diagnóstico quando você precisa explicar sua condição fora de casa. Ela não substitui a consulta nem a avaliação de quem atende.
Passo a passo
- 1Consulta reumatológica
Conversamos sobre o padrão da dor, a rigidez ao acordar, a fase da DII e os remédios que você já usa.
- 2Exame físico
Examino a coluna, a bacia, as articulações periféricas, os tendões e a pele, buscando sinais de espondiloartrite.
- 3Exames de sangue
Marcadores de inflamação e, quando útil, o HLA-B27 (gene ligado às doenças inflamatórias da coluna).
- 4Ressonância das sacroilíacas
O exame mostra se há inflamação ativa ou sinais de lesão antiga na articulação.
- 5Plano com o gastro
Reumatologia e gastroenterologia escolhem juntas um tratamento compatível com o intestino e a coluna.
- 6Retornos programados
Reavaliamos dor, mobilidade e exames para ajustar a conduta antes que a articulação perca movimento.
Quando atendo alguém com doença inflamatória intestinal e dor nas costas, olho para o intestino e para a coluna na mesma consulta. O remédio que serve para um precisa ser seguro para o outro.— Dr. Erivelton Lopes
Perguntas frequentes
O que é sacroileíte?
É a inflamação da articulação sacroilíaca, que liga o sacro (osso no fim da coluna) aos ossos da bacia. Ela pode causar dor na parte baixa das costas e nas nádegas. Em quem tem doença de Crohn ou retocolite, pode ser uma manifestação da DII fora do intestino.
Por que a doença inflamatória intestinal afeta a coluna?
Crohn e retocolite são doenças do sistema imune, e a inflamação que começa no intestino pode atingir outros órgãos. As articulações da coluna e da bacia estão entre esses alvos. O mecanismo envolve células e substâncias inflamatórias que circulam pelo corpo, e ainda é estudado.
Como diferenciar dor lombar comum da sacroileíte?
A dor da sacroileíte costuma aparecer em repouso, piorar na segunda metade da noite e aliviar com movimento, com rigidez ao acordar. A dor mecânica tende a piorar com esforço e ceder com descanso. Esses padrões se sobrepõem e sugerem a causa, mas não confirmam nem excluem o diagnóstico sem avaliação médica.
Se o intestino está controlado, a dor ainda pode ser sacroileíte?
Pode. A inflamação da coluna nem sempre acompanha a atividade do intestino e pode seguir ativa com a DII em remissão. Por isso, dor lombar inflamatória persistente merece avaliação reumatológica mesmo quando as evacuações estão normais.
Qual exame confirma a sacroileíte?
Nenhum exame confirma sozinho; a ressonância auxilia o diagnóstico junto à avaliação clínica. Ela pode mostrar a inflamação ativa mais cedo, enquanto a radiografia vê principalmente lesões antigas. O reumatologista interpreta a imagem com a história, o exame físico e os exames de sangue, porque o laudo isolado pode enganar.
HLA-B27 negativo descarta sacroileíte?
Não. O HLA-B27 é um gene ligado às espondiloartrites, mas muitas pessoas com sacroileíte associada à DII têm o exame negativo. Ele ajuda a compor o raciocínio, sem confirmar nem excluir o diagnóstico sozinho.
Posso tomar anti-inflamatório para a dor nas costas?
Só com orientação médica. Anti-inflamatórios como ibuprofeno e diclofenaco podem desencadear crise de Crohn ou retocolite, e o risco varia com a fase da doença, o remédio e a duração do uso. Com o intestino em remissão, o médico pode liberar ciclos curtos. Essa decisão envolve o reumatologista e o gastroenterologista.
Existe biológico que trate o intestino e a coluna juntos?
Sim, em muitos casos. Os anti-TNF de anticorpo monoclonal, como infliximabe e adalimumabe, agem nas duas frentes e costumam ser a primeira escolha quando há DII. A decisão depende da molécula, de ser Crohn ou retocolite e da atividade na coluna. Os inibidores de interleucina 17 podem piorar o intestino, e os de interleucina 23 não mostraram efeito na coluna.
Exercício ajuda na sacroileíte?
Ajuda. As recomendações internacionais colocam exercício regular e fisioterapia ao lado dos remédios. Alongamento, fortalecimento e atividades como natação mantêm a coluna móvel e reduzem a rigidez. O programa deve respeitar a fase da DII e a condição física de cada pessoa.
A sacroileíte pode deixar a coluna rígida?
Sem controle, a inflamação pode levar a lesões crônicas e, em alguns casos, à fusão da articulação. O acompanhamento regular permite ajustar o tratamento enquanto a inflamação ainda está ativa, preservando a mobilidade. Os retornos incluem exame físico e, quando necessário, nova ressonância.
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Consulta com Dr. Erivelton Lopes, Reumatologista, no NuDii do Instituto Medicina em Foco, em São Paulo.
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